Xadrez obscurece com a perda de uma estrela
Crônicas Por Gérson Batista Domingo, 21 de fevereiro de 2016

"Xadrez Obscurece com a Perda de uma Estrela", homenagem de Hindemburg Melão Jr ao MI Hélder Cârama, falecido dia 20/2.

 

 

Por: Hindemburg Melão Jr.

 

 

 

Xadrez obscurece com a perda de uma estrela

 

Foto: Divulgação/ Milton Michida

 

Hoje, com imenso pesar, recebi a notícia do amigo Rafael Zakowicz sobre o falecimento do amigo Hélder Câmara.

 

Conheci o Hélder quando eu era adolescente, numa situação hilária. Ele gostava de incentivar jovens jogadores talentosos, e até jogadores sem talento, como eu. Durante os anos que tive contato com ele, recebi muitos presentes: um jogo de peças indianas Staunton que uso até hoje, um tabuleiro italiano, uma maleta de Xadrez da USCF, uma caneta Montblanc, um livro com dedicatória etc. Embora ele não fosse muito afeito a fazer elogios, a dedicatória que me fez em seu livro foi uma rara exceção.

 

Os presentes mais valiosos foram as muitas aulas gratuitas, pois eu não tinha como pagar, e ele ensinava com prazer. Cada conversa com ele era uma aula, e creio que grande parte dos grandes jogadores dos anos 1980 e 1990 aprenderam com ele. Todas as vezes que fui em sua casa, fui muito bem recebido por ele e sua esposa, Sra. Magda, e ele gostava tanto de ensinar que não me deixava ir embora, e algumas vezes perdi o horário do último metrô.

 

Os estudos de Troitsky, Kubel e outros grandes compositores de Xadrez o emocionavam, e quando ele mostrava estes estudos, aumentava ainda mais os encantos destas obras de Arte, com seu jeito entusiástico e criativo de comentar. Suas colunas de jornal e seus livros combinavam uma perspicácia extraordinária, um agudo senso de humor, levemente ácido, e algumas vezes não tão leve. Até onde me lembro, Hélder é a pessoa com maior perímetro craniano que já vi, especialmente a região do lobo frontal. Desconfio de que havia pelo menos uns 3 cérebros lá dentro.

 

Atualmente os títulos de Grande Mestre e Mestre Internacional estão mais popularizados. Agora o Brasil tem mais de 10 grandes mestres, mas nos anos 1960 não havia nenhum. Então surgiu Mequinho, que foi o maior talento do Xadrez brasileiro de todos os tempos, e durante muitos anos foi o único grande mestre brasileiro. Além do Mequinho, havia apenas 4 mestres internacionais: Hélder, Herman, Rocha e Segal.

 

Claro que houve avanços importantes na qualidade do Xadrez brasileiro e mundial. Milos, Vescovi, Sunye e outros contribuíram tremendamente para elevar o nível técnico desse esporte-ciência, porém esse aumento no número de titulados não acompanha o mesmo ritmo do desenvolvimento técnico. De acordo com estudos de Rob. Edwards e Jeff Sonas, baseados em milhões de jogos das últimas décadas, o rating atual está inflacionado em quase 200 pontos em comparação ao que era antes de 1985.

 

Isso explica porque agora há muito mais grandes mestres e mestres internacionais, pois o critério para homologação de títulos permanece o mesmo, mas satisfazer aos critérios se tornou 200 pontos menos difícil. Além disso o número de eventos válidos para normas de GM e MI se multiplicou, gerando muito mais oportunidades. Portanto o título de MI do Hélder, conquistado nos anos 1970, vale tranquilamente mais que um título atual de GM.

 

Algumas figuras do Xadrez brasileiro se notabilizaram não apenas pela excelência técnica e criatividade, mas também por alguns atributos que os tornava singulares. Conforme comentou o amigo Rafael Zakowicz, Hélder tinha um grande coração. Com sua personalidade irreverente, assemelhava-se muito ao estilo de Fischer, aliás foi o único brasileiro a jogar com Fischer.

 

Era muito ligado a seu irmão Ronald, de quem sempre falava com orgulho, respeito e amor. Creio que o falecimento de seu irmão, em meados de 2015, tenha influenciado uma condição de tristeza que pode ter acelerado sua partida. Dupla perda profundamente sentida para o Xadrez.

 

Além de bi-campeão brasileiro, 4 vezes vice-campeão brasileiro e 6 vezes representante do Brasil em Olimpíadas, também é recordista brasileiro em número de adversários em simultâneas às cegas, considerado autor da Defesa Câmara, por mais de 40 anos colunista de Xadrez.

 

Seu recorde às cegas ocorreu em 1965, no Jacarepaguá Tenis Club, onde jogou simultaneamente, às cegas, contra 12 oponentes. Há algumas polêmicas sobre isso e acho necessário esclarecer. Josino Rezende reivindica ser ele o recordista, com 11 simultâneas às cegas, e diz que não há registros do evento no Jacarepaguá Tenis Club. Sr. Virgílio disse que Antonio Rocha jogou no CXSP 10 ou 12 simultâneas às cegas, sem saber especificar exatamente quantas, e um aluno do Rocha cita 15 num livro.

 

O Grande Mestre Herman Claudius comentou que não havia nenhum registro dos eventos do Hélder nem do Rocha, e ele considerava que o recorde brasileiro em número de adversários devidamente documentado é de minha simultânea às cegas a 10 tabuleiros, no CPP, em 1998, ou a que joguei em 1997, no CXSP, a 9 tabuleiros, e que foi registrada no Guinness pelo mate anunciado mais longo. Nas conversas que tive com Antonio Rocha, ele nunca citou estes eventos, por isso não tenho como confirmar, mas o próprio Hélder relata com alguns detalhes como foi seu evento de 1965, bem como o presidente do Clube de Xadrez Epistolar Brasileiro, Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto, que esteve prestigiando minha simultânea às cegas de 1998 e fez o discurso de abertura, comentou comigo que esteve presente no evento do Hélder de 1965 e testemunhou o fato.

 

Em 1997 fiz uma pesquisa razoavelmente profunda e detalhada, e ninguém soube dizer local e data em que teriam ocorrido as simultâneas do Rocha, nem tinham certeza sobre o número de tabuleiros. Portanto, na minha visão, o recorde brasileiro em número de adversários numa simultânea às cegas cabe ao Hélder. Também não tenho dúvida de que o Rocha pode ter de fato jogado 12 ou 15, ele tinha uma memória prodigiosa, porém não recebi informações concretas de fontes razoáveis que confirmem isso. Se o próprio Rocha tivesse me dito que jogou 12 ou 15, eu não duvidaria. A declaração do Sr. Virgílio também é muito confiável, mas ele próprio não sabia me dizer se 10 ou 12, e esse número conflitava com o de um aluno do Rocha.

 

No caso da defesa Câmara, está registrada na Encyclopedia of Chess Openings como “Defesa Brasileira”, e o Hélder falava disso com um certo rancor, porque não é Defesa Brasileira, é Defesa Câmara. De acordo com registros do Megadatabase 2016, a Defesa Câmara foi jogada pela primeira vez em 1920, e novamente em 1948. A primeira vez que o Hélder usou a Defesa Câmara foi em 1954, em duas ocasiões. Minha interpretação para isso é a seguinte: provavelmente, desde os tempos de Greco, Carrera, Ruy Lopez, Damiano, Lucena e antes, deve ter sido jogada esta defesa, assim como a Defesa Philidor foi jogada muitas vezes antes de que Philidor tivesse nascido. Porém eram jogadas por “acidente”, na maioria dos casos por iniciantes, em vez de serem planejadas. Os nomes das aberturas são conferidos em homenagem a jogadores de nível internacional que as tenham estudado de forma sistemática e desenvolvido alguma teoria de aberturas que justifique a prática das mesmas em torneios relevantes, e que as tenham jogado cientes do que estavam fazendo.

 

Embora possa haver certa subjetividade nesse critério, parece-me que esta defesa deve ser creditada com mais justiça ao Hélder. Em 1920, o condutor das Pretas foi Simon Krenzisky, no torneio Gotemborg C, ou seja, terceira categoria (C) de um torneio municipal. A partida de 1948 foi conduzida pelo mestre Stojan Puc, no Campeonato Absoluto de Belgrado, portanto um torneio de nível considerável e um forte jogador, porém ele perdeu a partida. O primeiro jogador de nível internacional a jogar a Defesa Câmara num torneio de nível considerável (Campeonato Brasileiro Absoluto de 1954) e ter vencido foi o Hélder. Além disso, o Hélder jogou esta abertura duas vezes em 1954, não foi um “teste isolado”. Como se não bastasse, em 1972 Hélder voltou a usar esta defesa (e venceu) no forte torneio de São Paulo, que foi um zonal, fase classificatória para o mundial (seguido pelo Interzonal e Torneio de Candidatos). Novamente utilizou esta defesa no Torneio Internacional Netanya A e em várias outras ocasiões, ao passo que os outros usuários da mesma abertura não demonstraram persistência nem consistência no uso.

 

Por estes motivos, acredito que o mais justo seja que a defesa 1.e4 e5 2.Cf3 De7 seja reconhecida como “Defesa Câmara”. Não estou seguro se estou sendo imparcial na avaliação, ou se estou tentando encontrar argumentos para apoiar o Hélder, mas acho que estou sendo imparcial, assim como acredito ter sido no caso do recorde em número de adversários em simultâneas às cegas.

 

Fiquei em dúvida entre comentar a partida do Hélder em que empatou com o campeão mundial Vladimir Kramnik, ou sua vitória contra o grande Gilberto Milos Jr. Aliás, para quem não sabe, o Hélder é um dos pouquíssimos sul-americanos a ter escore positivo contra o Milos. Acabei optando por incluir ambas, mas comentei apenas a partida com o Milos, que foi muito mais animada taticamente. Com Kramnik houve uma interessante luta estratégica, e talvez eu a comente no futuro, mas agora vou dormir. 

 

Texto original: www.saturnov.com

 

 

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