Crônica de São Paulo II
Crônicas Por Vanessa Rodrigues Quarta-Feira, 26 de agosto de 2015

 

Vanessa Rodrigues

Crédito da imagem: Gérson Peres/CXOL

 

Parte I

 

Por Vanessa Rodrigues*

 

O céu já anunciava o período crepuscular do dia quando alcancei a estação de metrô que me aproximaria do Esporte Clube Pinheiros: o maior clube poliesportivo da América Latina. Uau! Que glória a minha! Eu ia entrevistar um dos enxadristas e árbitros mais respeitados do Brasil, o MI Herman Claudius van Riemsdijk e, ao mesmo tempo, conheceria um templo do esporte nacional e latino americano.

 

A esta altura da minha viagem, o medo já tinha cedido um pouco o espaço para o cansaço, que teimava em me fazer lembrar da minha cama tranquila e do meu travesseiro gostoso.

 

Mas ainda não era o momento para eu me deixar ser levada pelo cansaço, pois, apesar de muito atrasada – sim porque toda a confusão com o cartão de memória, narrada na primeira parte desta crônica, fez com eu perdesse o controle do relógio – eu ainda tinha esse importante compromisso a cumprir com o multi-campeão em questão, que pacientemente me esperava no E.C.Pinheiros e que me concederia uma entrevista no intervalo do torneio que estava arbitrando.

 

Pois bem, embarquei no metrô na estação da República e desembarquei na última estação possível para o trajeto que me levaria ao meu destino daquele início de noite na grande São Paulo: estação Faria Lima.

 

Ao sair do metrô ouvi uma voz que vinha de dentro de mim. E não pensem vocês que se tratava de algum tipo de mediunidade ou anjo-da-guarda ou consciência ou algo do tipo. Era apenas o meu estômago que, gritando, avisava que já passava, e muito, da hora de alimentá-lo.

 

Mas, o quê?? O relógio brigava com o estômago e, também aos berros, apontava para o atraso que já se tornava insustentável; e eu ainda teria que tomar um ônibus para chegar ao meu ponto final.

 

Então, depois da disputa de quem grita mais alto, acabei ouvindo o relógio e segui, apesar do apelo das muitas lanchonetes que avistei pelo caminho.

 

Eu andava por entre as pessoas, ainda dentro da estação de metrô, que acredito ser maior que um bairro inteiro da minha cidade, e pensava comigo mesma como podia estar tão movimentado se já passava das 18:00 de sábado?

Este horário, nos sábados das cidades interioranas, é sinônimo de sorvete e salão de manicure e cabeleireira para as moças, e “esquenta” nos bares para os rapazes. Você não sabe o que é “esquenta”? Talvez eu trate disso em algum outro texto, mas agora não posso me demorar.

 

Mas a questão é que a rotina dessa mega capital difere bastante do dia-a-dia de cidades menores, onde as distâncias podem ser vencidas com bem menos sofrimento e onde as pessoas costumam até caminhar de um ponto a outro, sem terem que levar um dia inteiro para fazer isso.

 

As estações e os próprios metrôs são lugares para se observar pessoas de todos os tipos, às quais você pode atribuir a história que achar conveniente. O que, você não faz isso? Não cria personagens por onde anda? Ah, que chato! Eu adoro fazer isso. Olho para um rosto e imagino de onde vem, para onde vai, o que vai fazer, que tipo de trabalho tem, quantos amigos, e por aí vai.

 

Neste último trajeto vencido com a ajuda deste meio de transporte peculiar, eu me vi cercada por pessoas tão diferentes que era impossível segurar a minha imaginação.

 

Por exemplo: vi um grupo de amigos que conversava animadamente e que parecia ir a algum encontro de skatistas ali por perto. Para cada um deles imaginei uma história, um roteiro diferente, que também não posso contar aqui senão esse texto viraria um livro.

 

Aquietando a minha imaginação e já fora da estação, sabia que teria que pegar um ônibus que me deixaria na porta do Esporte Clube Pinheiros e, depois de perguntar a um senhor bem mau-humorado e de poucas palavras, localizei o ponto do ônibus, que ficava do outro lado da calçada em que me encontrava.

 

Deixando para trás várias histórias que eu havia criado com os personagens do metrô e a voz ensurdecedora do meu estômago, rumei para o ponto de ônibus, na esperança de chegar ao clube antes de ser derrotada pelo cansaço que me perturbava.

 

E lá vou eu de novo ficar completamente perdida dentro do ônibus a ponto de  ter que perguntar para alguém onde e quando eu deveria descer. Como a experiência anterior tinha sido boa, tentei repetir a técnica e perguntar ao cobrador do ônibus qual seria meu ponto de parada, só que, desta vez, não fui tão bem atendida quanto da última.

 

O cobrador deste ônibus era um senhor com muuuiiitos anos de vida. Digo isso porque não saberia precisar quantos, mas eram muitos, e parecia um tanto surdo ou impaciente ou as duas coisas. Mesmo assim perguntei e a primeira reação dele foi me ignorar completamente. Mas, como costumam dizer: a necessidade faz a lei e eu precisava mesmo saber onde descer. Perguntei novamente e a resposta veio, tão baixa que chegou a ser inaudível, mas veio.

 

Mineiro é bicho insistente, viu? E como o sangue mineiro corre pelas minhas veias, insisti em perguntar para, então, receber uma resposta que desse para entender. Que nada! Nem um movimentar de cabeça, nadinha de nada, e eu desisti. Fiquei em pé e tentei me localizar por conta própria já que não tinha sentido a confiança de perguntar a mais ninguém.

 

E qual não foi minha surpresa quando o cobrador centenário olhou em minha direção e disse secamente: _ “Sua parada é a próxima.” Eba!! Viva!! Ele apenas havia se poupado de falar antes de hora e, no momento exato, pronunciou a frase salvadora. Agradeci comovida e desci.

 

Pronto, tudo estava certo, eu havia chegado ao Pinheiros e agora era só entrar pela porta que estava a minha frente e encontrar meu entrevistando, certo? Errado! A aventura não havia acabado e prometia ainda muitas surpresas.

 

Arrumei um pouco minhas roupas e cabelos, organizei a mochila e fui alegremente falar com o guardião do portão do clube, um senhor muito elegante e com cara de pouco amigo – afinal, este é o papel dele. Cheguei mais perto e perguntei se podia entrar. Ele olhou para mim de cima a baixo – esse também é o papel dele – e me perguntou para onde desejava ir.                              

 

Após informar todos os detalhes que havia gravado em minha memória, para não ter que ficar retirando papelzinho do bolso, ele me disse que eu teria que continuar andando até o final do quarteirão e então virar à esquerda e continuar andando até encontrar a entrada correta para o local que tencionava ir. Explicou que para cada parte do clube havia um portão correspondente e que não era possível, em hipótese alguma, entrar por ali. Ok, se é assim, tudo bem!

 

Fiz como me disse e assim que cheguei no final do quarteirão, virei à esquerda e continuei caminhando, apesar de já estar perdendo um pouco o controle das pernas.

 

Ao visualizar uma nova entrada fiquei feliz e já fui perguntar: “_ Preciso ir à sala do xadrez, posso entrar por aqui?”. Desta vez havia uma guarita e a pessoa lá dentro, depois de olhar para mim de cima a baixo – ossos do ofício, né?! - disse que não era por ali e que eu deveria andar até o final do quarteirão e virar novamente e, então, encontraria outra guarita e que, talvez, só talvez, essa seria a que eu estava procurando.

 

Vixe! (essa é uma expressão que nós, mineiros, costumamos usar e que representa um misto de espanto e tristeza. O correto seria “Virgem Maria!”, mas como como mineiro gosta de abreviar, ficou Vixe!) Este é o maior clube poliesportivo da América Latina! Você consegue imaginar o tamanho deste quarteirão? Pois é! E lá fui eu.

 

É bem provável que a distância não fosse assim tão grande, mas o cansaço a fez parecer infindável. Tentei cantar. Cantar acalma e faz a gente mudar o foco e então, depois de soprar alguns trechos de algumas músicas, cheguei à tão procurada guarita do final do quarteirão.

 

Após ter sido recepcionada, ter o cadastro feito e a foto tirada, a minha entrada foi permitida e, finalmente, eu estava dentro deste enorme complexo poliesportivo. Respirei aliviada, afinal, estava a poucos passos de conseguir finalizar meu intento.

 

Então, depois de contar à atendente o quanto eu havia andado para chegar até ali, perguntei aonde ficava a sala do xadrez e ela, fazendo uma expressão bem desanimadora, disse: _ “Sabe esse caminho todo que você percorreu do lado de fora? Agora você vai percorrê-lo todo de novo do lado de dentro.”

 

Mas hein??!! Como é que é?? Eu teria que voltar exatamente ao primeiro portão no qual eu havia chegado? Do outro lado do quarteirão? Nesse momento só uma questão restou na minha cabeça: rir ou chorar? Preferi rir, mas não era um riso comum, era um riso de descrença, um riso que mais parecia chorar.

 

Assim, depois de convencer a minha mente de que não era brincadeira da recepcionista, ajeitei mais uma vez a mochila nas costas e comecei a subir. Ah é, faltou mencionar isso: para chegar até ali eu caminhei rua abaixo, agora eu teria que voltar caminho acima.

 

O meu estômago já não gritava mais, estava sem forças, apenas sussurrava na tentativa de se fazer ouvir, mas eu o ignorava completamente e cantava, cantava e cumprimentava as pessoas pelo caminho como se as conhecesse – coisas de gente do interior. Mas isso era só uma tentativa de amenizar a situação, de torná-la transponível.

 

Confesso que pelo lado de dentro o trajeto foi bem mais fácil, talvez porque eu me sentisse mais segura – afinal de contas entrar ali era bem difícil – talvez porque o lugar possuía tanta beleza que meus olhos se perdiam na esperança de captá-la.

 

O Esporte Clube Pinheiros é um lugar lindo, cheio de vida, de verde, de água, um verdadeiro oásis no meio da selva de pedras. Aproveitei cada passo para reparar o cuidado, o zelo com que o clube é tratado.

 

E assim, absorvida pela energia que exalava de cada pedra que eu pisava, consegui vencer novamente o caminho e chegar ao prédio que sediava a sala do xadrez, onde eu deveria encontrar meu próximo alvo.

 

Subi as escadas que estavam a minha frente e localizei a sala. Entrei pé ante pé, na intenção de não ser notada e, dessa forma, não atrapalhar o torneio em andamento.

 

Eu estava feliz, durante o trajeto cheguei a pensar que não encontraria mais a pessoa que estava me esperando, já que estava bastante atrasada e que não tinha informações sobre a duração do torneio que a havia levado ao Pinheiros.

 

E acabou dando tudo certo. Eu cheguei – viva, diga-se de passagem – e encontrei Herman Claudius desempenhando sua tarefa de árbitro e pacientemente esperando pela minha chegada.

 

Primeiro contato estabelecido, foi-me solicitado esperar pelo fim da rodada para então realizar a entrevista. Uau! Era tudo o que eu queria ouvir. Eu teria um tempinho para comer algo e haveria de encontrar um lugar ali perto que pudesse me vender um “sossega estômago”.

 

Descobri – perguntando, é claro! - que escadas abaixo havia uma sala de boliche e que lá tinha uma lanchonete.

 

Entrei afoita na sala e, sem reparar em nada e nem ninguém, sentei-me no balcão e pedi uma empada e um refrigerante. A moça me olhava com espanto e espantosamente perguntou se eu iria comer ali. Foi aí que percebi que eu era a única mulher, com exceção da atendente, que estava no salão. Não sei se era dia do “clube do bolinha” e definitivamente não estava me importando com isso. Afirmei que sim e, educadamente, apesar da fome, degustei meu lanchinho e fiz feliz meu estômago, que já não estava mais conversando comigo.

 

Subi novamente as escadas e então comecei a reparar na sala do xadrez. É um espaço pequeno, tendo em vista as proporções do clube que o sedia, mas que atende muito bem aos objetivos a que se propõe. É clara e arejada e estava repleta de jogadores, de diversas idades, que participavam, compenetradamente, do torneio arbitrado pelo meu futuro entrevistado.

 

Após um período de espera que serviu, acima de tudo, para que eu me refizesse da jornada empreendida anteriormente, realizei a tão desejada entrevista, desta vez já com a ajuda do meu marido e editor do CXOL, Gérson Peres Batista, que havia chegado há pouco no clube (vindo de carro, aff!).

 

Foram cerca de treze minutos de completa troca de boas energias e intenso aprendizado. Uma verdadeira jóia que transformou o transtorno do caminho em mera quimera, em cinza. As dicas, as lições passadas pelo Mestre Herman Claudius, de forma tão abnegada, teriam aplicações profundas na vida de todos os enxadristas menos experientes.

Tudo valeu a pena, tudo estava bem. Certo? Errado de novo.

 

Com a tarefa aparentemente cumprida, despedimo-nos de nosso gentil entrevistado e seguimos nosso itinerário, rumando para casa de amigos, só que desta vez, de carro. Bem mais fácil assim, apesar de que dirigir em São Paulo requer uma dose extra de coragem e concentração.

 

As horas seguintes transcorrem muito bem e mais tarde, e quando eu digo tarde eu quero dizer muito tarde mesmo, chegamos, Gérson e eu, ao hotel que estava nos hospedando. Animadamente conversamos sobre toda a aventura vivida e, felizes, começamos a rever as fotos e os vídeos gravados durante todo o dia, que tinha sido muito produtivo, apesar de extremamente cansativo.

 

E... adivinha só?? Não, ninguém poderia sequer imaginar! Por alguma razão que foge ao nosso conhecimento, totalmente incompreendida, o vídeo com a entrevista com o Herman havia simplesmente desaparecido da memória da máquina.

 

_ “Não!!!”  Eu dizia sem parar, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, na tentativa de acordar desse susto e então encontrar a gravação de ouro.

 

Mas, nada. Nada, nada e nada. Estranhamente, absurdamente, as fotos estavam lá, mas o vídeo havia sumido, virado poeira, desaparecido.

 

E agora, o que fazer? Nada, não existia nada que pudesse ser feito, o vídeo simplesmente não estava lá e pronto, ponto final.

 

Como o que não tem solução, solucionado está, respiramos profundamente relembrando toda a conversa gravada, toda a experiência passada e, absolutamente vencidos pelo cansaço, caímos no sono.

 

* Sobre a autora: Vanessa Alves Rodrigues é jogadora e árbitra de xadrez, responsável pela empresa Clube de Xadrez Online. Está traduzindo do inglês para o português a coleção Xadrez Marvel, que tem 64 fascículos e é comercializada em bancas de jornal de todo o país. Sua formação acadêmica é em administração de empresas, com pós-graduação em psicologia organizacional. Atualmente faz uma nova pós, esta na área de tradução. É funcionária pública municipal e professora de inglês no CNA.

 


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