O xadrez e a Copa do Mundo ou um sonho muito louco
Crônicas Por Matheus Peres Batista Quinta-Feira, 05 de junho de 2014

O enxadrista e escritor Roberto Capel Molina nos brinda com uma nova crônica: "O xadrez e a Copa do Mundo ou um sonho muito louco".

 

 

 

 

Por Roberto Capel Molina

 

Enxadrista e escritor

Roberto Capel Molina

Foto: Divulgação/Flickr

 

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Fui recentemente, em um sonho muito louco, procurado por dois peões. Um claro e outro escuro, das minhas peças de xadrez que, em nome das outras peças, convidaram-me para uma reunião muito importante, e que poderia mudar a história da educação no Brasil, e mesmo a participação do xadrez nela. Foi a segunda vez que isto aconteceu. A primeira vez envolveu o peão envenenado do jogo da Haruna, no brasileiro juvenil de 2012, me pedindo socorro, achando que estava morrendo.

 

A tal reunião seria com todas as 32 peças do meu jogo de xadrez. Tão logo cheguei, fui perguntando do motivo, e do meu envolvimento. Em um sonho não sei dizer se podemos argumentar muitas coisas, ou deixar rolar as discussões, mas assim o fiz, para ver onde ia dar toda aquela parafernália de ideias que estavam tendo eles antes de eu chegar.

Minha preocupação era tanta que ainda não tinha percebido a disposição das peças no tabuleiro do meu jogo. Com olhar mais atento e acalmado, notei os dois reis dispostos lado a lado, abraçados e dirigindo a reunião, em casas vizinhas. Tal disposição não é permitida em um jogo de xadrez. Nem se quer permite-se apertar as mãos durante a partida, tampouco se aproximar um rei do outro em uma casa. As outras peças estavam sentadas em círculo, não necessariamente em suas casas de origem, lado a lado.

 

Achei aquilo tudo muito estranho, mesmo sendo sonho. Eu não sabia que era um sonho, mas os dois reis me pediram aproximação, e informaram o motivo da assembleia:

 

- Bem, Roberto, é que estamos bastante inconformados com a situação do xadrez no Brasil, e mesmo da educação, depois que vimos em seu perfil, no facebook, fotos de belos clubes de xadrez, aconchegantes, salas de aula em países de primeiro mundo com professores bem trajados, felizes com o que faziam, merecendo o respeito por parte dos alunos, do xadrez e das escolas, particulares ou não. Enquanto que, no Brasil, sabe-se que a educação caminha para o caos, com clubes de xadrez quase parando, em dificuldades.

 

- E qual a minha participação nesse negócio? Indaguei.

 

- Primeiramente, não são negócios, e sim reivindicações. Você, como nosso dono, professor licenciado que é, deverá seguir conosco em nossas pretensões, sobre as quais o colocaremos a par agora.

 

É que, durante essa Copa de 2014, todo o mundo estará com os olhos focados no Brasil, e saberão das manifestantes por aqui. Assim, pensamos que teremos uma chance de ouro nas mãos para levar a público essas nossas ambições e reclamações. Além do mais, eles verão a discrepância entre a educação deles e a nossa. Saberão da diferença de salários dos professores, e poderão compará-los aos dos jogadores de futebol, por exemplo. Virão jornalistas de diversas áreas, não só do futebol, mas da economia, educação, saúde e outros. Então, reflita conosco, é ou não é chegada nossa hora?

 

Vamos expor algumas situações para os jornalistas, que vão querer esmiuçar essas diferenças num país que gastou essa fábula de dinheiro na reforma e construção de estádios para o evento anunciado.

 

Vamos exemplificar casos interessantes, como o do Xadrez Bragança, que numa ação maravilhosa, num lindo projeto, reúne ajuda de todo lado para comprar tabuleiros especiais para deficientes visuais, exceto dinheiro público, é claro, que não vem de jeito nenhum. O caso da Escola Estadual Silviano Brandão em Belo Horizonte, em que os alunos tiveram de treinar para um campeonato com cartolinas dobradas em substituição aos relógios. Foi o recurso pensado pela Professora Nayla Freitas, que orientou seus alunos a tocarem na cartolina após cada movimento, imaginando ser aquilo um relógio. Também a situação de Vitor Hugo Campos, aluno de Ibirité, que nunca teve cumpridas as promessas de ajuda para viajar a torneios estaduais e nacionais. Ele que é talentoso no xadrez, e não possui recursos para as tais viagens, diminuiu muito seu treinamento, não tendo disputado torneios. Como o caso dele, existem milhares no Brasil. Lembrar-nos-emos de mais situações que ocorrem às pencas no Brasil, para relatarmos aos jornalistas estrangeiros que aqui estiverem.

 

Eu disse então que lá é primeiro mundo, onde é sabido o valor da educação, tanto quanto o valor do xadrez como ferramenta pedagógica e eficaz, da qual vocês fazem parte. Aqui não dão o valor necessário a ambos, e os desconhecem como prioridade.

 

Sem querer, massageei o ego deles, e sorriram. Mas logo voltaram a expor suas mágoas e chateações para com nossos governantes, principalmente depois que eu disse que dinheiro havia e muito, mas para o futebol.

 

- Bem, e aí, o que pretendem fazer para expor isto ao mundo? Provoquei-os.

 

- Nós só não, você também. Pensamos em fazer uma manifestação em frente ao Mineirão nos dias de jogos da Copa do Mundo. Checamos a cartilha anti-protesto e não vimos nada contra reunião de peças de xadrez. Ainda não sei como vamos chegar, mas que vamos estar lá, vamos, com ou sem você.

 

Sabemos que, quando a ficha deles cair, vão nos perseguir e nos atacar com seus cães e cavalos, e nos inibir. Mas, até lá nos mostraremos para o mundo.

 

Sabemos também que o Ronaldo logo virá e dirá que não se faz Copa do Mundo com peças de xadrez, nem com hospitais e coisa e tal. Até pensamos em ensinar o jogo a ele, mas aí lembramos que ele foi genial no futebol, mas para outras coisas...

 

Pensamos até em cobrir o rosto de alguns de nós, e avançar com coquetéis molotov nas mãos e sinalizadores, mas sem usá-los, para não cair nessa baixaria. Foi voto vencido na reunião, antes de você chegar.

 

Poderíamos pedir ao Roberto Lúcio, enxadrista e paraquedista amigo seu, pra saltar e cair bem no centro do gramado, levando com ele algumas peças. Assim as esparramaria por todo o campo de jogo. Até que nos recolhessem, as centenas de jornalistas ali presentes ficariam curiosas, nos entrevistariam, e aí exporíamos nossas ideias.

 

Pensamos em nos unirmos a outras peças de outros jogos de xadrez e abraçarmos o Mineirão. Você seria como nosso condutor até o local e tradutor para com os jornalistas estrangeiros, que nos entrevistariam em suas línguas, pois não sabemos inglês nem espanhol. Pensamos em montar um xadrez gigante no Hall de entrada do estádio e impedir a entrada dos torcedores por alguns minutos. Mas seríamos pisoteados pela multidão apaixonada pelo futebol, além naturalmente de causar constrangimento nas autoridades, que mandariam o batalhão de choque, gás de pimenta e coisa e tal.

 

Sonhe conosco nossos sonhos, Roberto. Faça parte desta manifestação. Se formos presos, não se preocupe, já pensamos em tudo: chamaremos o advogado do Fluminense.

 

Resolvi então colaborar para esse ideal maravilhoso que brotou no coração delas, as peças do xadrez, pois as imagino com vida e alma ao estilo do pensamento de Philidor, Ivan Carlos Regina, Hélder Câmara, Roberto Telles, e outros enxadristas e pensadores do xadrez.

 

De repente alguém fez algum barulho e acordei, meio que assustado e tentando entender o que foi aquilo, aquele sonho muito louco. Fiquei a pensar durante muito tempo, não conseguindo mais dormir.

 

Passou como que um filme em minha cabeça, e finalmente entendi aquilo como um recado, que deveria ser levado ao público o conteúdo daquele sonho. Dessa forma, todos os envolvidos, tanto em educação como em xadrez, poderiam sonhar conosco e lutar mais ardorosamente pela educação no Brasil. Levaríamos ao conhecimento do mundo tudo que passamos para seguir adiante com nosso ideal. O ideal por um Brasil melhor, onde a educação venha a ser tratada com a importância que merece.

 

Fiquei ali deitado ainda um bom tempo, pois era sábado e não tinha pressa para levantar. Mas logo teria que pegar da caneta para escrever esse sonho.

 

E passei ainda longo tempo a imaginar, como que criando uma ilusão em minha cabeça. Mas tudo poderia ser, em breve, muito real. Crianças de todo o mundo, sub ou em desenvolvimento, em condições iguais às do primeiro mundo. Frequentando escolas públicas ou particulares, bem alimentadas, com todas as condições para absorver os ensinamentos. O xadrez presente como ferramenta pedagógica poderosa, reconhecido como tal. Ainda mais, com o xadrez em todas as praças, parques, pessoas aprendendo e pessoas ensinando, jogando com alegria, que é um dos seus ingredientes principais. Imaginei salas de aulas em condições boas, professores felizes com o que faziam, rendendo muito mais.

 

E mesmo com tanta resistência de toda parte, que essa chama viva seja crescente, e que se transforme em um incêndio gigantesco, no bom sentido. E que possa atingir os corações dos que governam. Que aquilo que imaginamos para nosso futuro e de nossas crianças não seja só um sonho ou ilusão, mas realidade.

 

Que não seja este nosso sonho um sonho muito louco, mas real. E que num futuro próximo, não tão distante, vivamos num mundo novo, um mundo melhor, tão sonhado por todos.

 

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