Começou a disputa mais “jovem” pelo título mundial de xadrez - por Marcelo Carpinetti
Artigos Domingo, 13 de novembro de 2016

Começou a disputa mais “jovem” pelo título mundial de xadrez

 

Autor: Marcelo Carpinetti

Texto original: https://mimaurodesouza.wordpress.com

 

“Esta é a primeira vez que dois jogadores que cresceram na era do computador lutarão pelo título, representando uma mudança geracional no xadrez.”

Trecho do texto oficial de apresentação do evento.

 

Neste dia 11 de novembro de 2016, tem início mais uma disputa pelo título de Campeão mundial de xadrez. Dentre as diversas particularidades envolvendo o match, uma delas, vamos dizer assim, tem uma característica mais significativa que as demais: pela primeira vez em exatos 130 anos de disputas “oficiais” pelo título máximo desse jogo-esporte, tanto o atual campeão quanto o seu desafiante têm menos de 30 anos. Para um público pouco familiarizado com o assunto, esse fato poderia parecer até trivial. Afinal, como diz o ditado, “o mundo é dos jovens”. Contudo, pelo menos na história do xadrez, ser um jovem prodígio é uma coisa, mas ser um jovem campeão mundial é outra bem diferente.

Ao longo dos séculos, muitos foram os enxadristas que fizeram fama mundial como forças a serem respeitadas em suas respectivas épocas. Porém, numa época em que a informação circulava de maneira muito mais lenta do que a de hoje em dia, quão rápido era o desenvolvimento dos “prodígios” de antigamente?

Uma maneira de responder a essa pergunta é lembramos dos mestres do passado. Jogadores cujo domínio sobre os demais em suas respectivas épocas inspirava as gerações seguintes a “copiarem” suas ideias, influenciando o desenvolvimento do esporte. Dentre eles, nenhum livro sério sobre o assunto seria completo sem citar Ruy Lopez de Segura, Gioachino Greco, François-André Philidor, La Bourdonnais, Paulsen, Paul Morphy, Chigorin, Steinitz, Capablanca, Alekhine, Botvinnik e Smyslov como nomes emblemáticos na história do xadrez. Pois, com exceção de Morphy – um dos poucos reais prodígios do xadrez moderno –, nenhum desses nomes chegou ao seu auge antes dos 30 anos de idade.

Wilhelm Steinitz, primeiro campeão mundial oficial, conseguiu o título aos 50 anos. Entre 1894 e 2000, dos treze campeões seguintes a Steinitz, apenas cinco chegaram ao posto mais alto ainda na faixa dos 20 anos (incluídos aqui Anatoly Karpov, que conseguiu o título aos 24 anos sem jogar a final, e Bobby Fischer, que tinha 29 à época). Apenas no período de disputas internas entre a FIDE e seus dissidentes nos anos 1990, quando o xadrez passou a ter semelhanças com o boxe (onde é comum coexistirem dois cinturões de campeão), foi que mais duas breves exceções apareceram – tão breves e desimportantes que pouco são lembradas hoje em dia.

xadrez-2016

Voltando aos protagonistas do match de 2016 e ao xadrez contemporâneo, tanto Carlsen quanto Karjakin são emblemas da nova geração de jogadores aparecida nos últimos 15 anos. Apesar de, na superfície, a idade que ambos têm hoje (25 e 26 anos, respectivamente) não parecer grande coisa (por exemplo, Lasker tinha a mesma idade quando foi campeão em 1894), o seu desenvolvimento como jogadores de elite foi brutalmente mais rápido. Mas o que turbinou essa geração em relação às anteriores?

Diferentemente das opções disponíveis a um jogador algumas décadas atrás, qualquer pessoa hoje com um computador com acesso à internet tem disponível para si dezenas de horas de vídeos de instrução, milhares de títulos de livros, aulas por Skype, Facetime ou e-mail, jogos online, informações sobre torneios, bases de partidas, além de tudo o mais que já existia no passado. E aí é que está a questão. Some um pouco de talento a essas doses cavalares de informação fácil e acessível, e você conseguirá produzir mais rápido jogadores top. Acrescente um pouco mais de talento, e muitos deles serão campeões.

Dito tudo isso, a pergunta que fica é: o mundo vertiginoso de informação em que vivemos há quase duas décadas favorece apenas os mais jovens, pois pouca idade (e muita energia) é o que conta, ou esse mar de informação pode favorecer tanto quanto os mais velhos, dando-lhes sobrevida mesmo nos mais altos níveis de competição? A final de 2012, entre dois jogadores de mais de 40 anos, pendia a favor dos mais velhos. Já hoje, passados quatro anos…