A Melhor Partida de Emilio Córdova - artigo publicado pelo jornal LaRepublica
Artigos Por Vanessa Rodrigues Quarta-Feira, 15 de junho de 2016

Texto original: larepublica.pe/impresa/domingo/776169-la-mejor-partida-deemilio-cordova

 

A melhor partida de Emilio Córdova

 

Depois de mochilar por sete anos pelo México, Emilio Córdova (24), o mais recente campeão continental de xadrez, número um do mundo na categoria até 14 anos, e tristemente famoso por um romance adolescente, aprendeu a jogar a partida da vida: reconciliou-se com seu pai, casou-se e vai viver em Lima. Uma família o apóia.

Ao final de 2008, quando Emilio Córdova saiu definitivamente do Peru, por causa de um torneio em Cuba e valendo-se de uma emancipação de menor, tinha 17 anos, duas malas e uma cruz: era o enxadrista mais promissor do país (Grande Mestre Internacional mais jovem da América do Sul aos 16 anos. Jorge Cori o superaria no ano seguinte, com apenas 14 anos), mas era famoso por ter sustentado um romance com uma mulher mais velha (uma brasileira  com o dobro de sua idade).

A moral se abateu, o IPD cortou sua mensalidade por três anos, as empresas privadas lhe viraram as costas e sua imagem, transformada da noite para o dia, foi confinada às páginas de fofocas. Foi um véu que cobriu seu reconhecido talento.

Desde então, Emilio Córdova apareceu nos meios de comunicação por causa de alguma discussão com o presidente da vez da Federação de Xadrez, por suas tentativas de se nacionalizar mexicano ou por causa de algum episódio de sua vida amorosa. Sobre xadrez mesmo, havia pouquíssimo. Apenas algumas passagens de sua rivalidade enxadrística com Julio Granda ou com os irmãos Cori, e algumas menções a torneios, vencidos ou não.

Há alguns dias, o véu se desfez e a luz ressurgiu: foi Campeão Continental das Américas, em El Salvador e, de passagem, conseguiu a classificação – a primeira de sua carreira – para a Copa do Mundo da FIDE 2017, na Geórgia.

 

O explosivo oculto

 

Durante dois anos, Emilio Córdova não trocou nenhuma palavra com seu pai. Uma vez disse que já não o considerava um amigo e sugeriu um interesse econômico de sua parte.

_ Foi doloroso, difícil de esquecer, mas era uma criança e o compreendo. Compreendo porque gosto dele.

Amargura e regozijo se alternam na memória de Arturo Córdova (56), seu pai. As vezes que o levou para jogar Nintendo como prêmio por haver aprendido os movimentos das peças; os quinze sóis (unidade monetária do Peru) diários que destinava (um sol por partida) a seus rivais, apostadores habituais da Plaza Francia, apenas para treiná-lo; as portas que bateu com o currículo de seu filho nas mãos, pedindo 500 dólares para possibilitar suas viagens para competições; as medalhas que conquistou no país ou fora dele, que ele também consegue enumerar: Campeão Panamericano sub-10, sub-12 e sub-14, Mestre Internacional com 14 anos, título conquistado no World Open USA em 2015 na Filadélfia, nº 1 do mundo em sua categoria naquele ano glorioso e mais...

A culpa o assombra também. Se Arturo se lamenta de algo, é de não haver acompanhado seu filho nos torneios por falta de dinheiro. Emilio nunca se acostumou.  A ausência o obrigou a amadurecer, mas também diminuiu sua confiança e se alojou dentro dele como um explosivo oculto.

“Muita gente não entende que se um jogador de xadrez perde, precisa de alguém com quem desabafar. Emilio nunca teve ninguém. Nem treinador, nem psicólogo, nem nutricionista”, aponta Luis Aguilar (57), jornalista peruano radicado há 25 anos em Nova York e que assessora Emilio há dez anos, na maioria das vezes, pela internet.

“Sempre me subestimei. Menosprezava minhas conquistas. Sentia-me menos que o resto”, disse Emilio. Se prestarmos atenção, o sistema enxadrístico é um tanto estranho: a euforia é proibida. O ganhador corre o riso de ser expulso da sala se gritar de emoção. Um aperto de mãos amistoso é apenas o permitido. De qualquer forma, os sentimentos devem ficar contidos sem recompensa imediata.

 

De volta pra casa

 

No começo do ano, em uma tarde qualquer, Arturo Córdova atendeu ao telefone de sua casa, um solar antigo, de quatro andares, aos fundos de uma rua sem saída, em San Matín de Porres. Era Emilio com um pedido que lhe pegou de surpresa: “Quero voltar a Lima com minha noiva. Será que teria espaço aí em casa?”

_ Esta sempre será sua casa. Venha quando quiser, filho. Para mim é uma alegria imensa. Não guardo rancor.

Arturo não estava mentindo: ele manteve intacto o quarto de Emilio durante todos esses anos, agarrado a uma certeza que só os pais conhecem.

Nessa mesma casa também moram três dos seus irmãos por parte de pai e seus avós, Primo (82) e Balbina (90); Emilio se casou com Wendy Garcia (21), de Havana, ruiva e de olhos verdes, estudante de línguas estrangeiras, que conheceu um ano e meio atrás.

_ Ela me incentivou a me reconciliar com minha família. Sua energia é contagiante e me motiva a ser alguém melhor. Depois de um torneio, indo bem ou mal, sei que há alguém me esperando com uma sopa quente.

Exceto nos últimos tempos, Emilio viveu entre o México e Cuba como mochileiro, em casas de amigos, com uma mala sempre pronta para partir. O dinheiro dos prêmios durava, com sorte, até o fim de semana.

_ Era muito gastador. Convidava os amigos par sair e diziam que eu era o máximo. Claro, era eu quem pagava.

Há alguns anos, Emilio anunciou o casamento com uma namorada anterior. O casamento não se realizou porque ele gastou o dinheiro em um casino.

_ As coisas acontecem por alguma razão. Provavelmente agora estaria me divorciando.

Apesar de sua voz calma e de seus 24 anos (25 no mês seguinte) Emilio é um veterano na difícil arte de enfrentar a vida. Ali, onde nem sempre se começa a partida com todas as peças sobre o tabuleiro.

Em 2006, meses antes de viajar para o Brasil e de ameaçar fugir com uma mulher mais velha, Emilio conheceu sua mãe biológica, que era de Pucallpa e que de repente se interessou pelo filho gênio. Sobram perguntas e aparecem algumas respostas.

 

Líder do esporte ciência

 

_Perdi a confiança em 2010 e acabo de recuperá-la.

Emilio se refere ao torneio 'Universidad Central' de Bogotá, no qual ficou em sexto de oito participantes. A partir dali a deficiência – como ele mesmo chama – acentuou-se: cada vez que começava uma partida com vantagem, perdia. E eu não sabia controlar a raiva.

Para o XI Campeonato Continental das Américas, em El Salvador, Emilio contou, de alguma maneira, com uma equipe. Um treinador, um nutricionista e uma psicóloga. Todos amigos mexicanos que lhe doaram seu tempo. Nenhum deles viajou com ele, mas todos acompanharam a sua preparação. Imedics, um empresa de saúde também mexicana, custeou as passagens e a inscrição. Não esteve sozinho e o resultado apareceu.

Como campeão, Emilio acumulou 19 pontos e aumentou seu ELO (sistema de pontuação) para 2.621. Encontra-se somente a 79 pontos de ingressar na elite mundial dos 'super grandes mestres' de 2.700, onde nem Julio Granda conseguiu chegar. Por hora ocupa o 231º lugar no ranking.

Porém, seu objetivo não é apenas retomar sua carreira enxadrística por cima, mas também promover o xadrez em colégios, universidades e bairros. Tirar do jogo o estigma de complexo e lento. Pensa em formar uma associação.

_ Gostaria de ser um líder e levar o xadrez a todo meu país, ser reconhecido por minhas vitórias e deixar para trás a história que não me faz bem. Meus resultados eram instáveis porque minha vida também era.

Em alguns dias, Emilio Córdova irá a Barcelona para disputar um circuito de cinco torneios que se estenderá até dia 15 de setembro.

Seja qual for o resultado, uma família e uma sopa quente o esperam. A partida mais importante já está ganha.

Texto de Renzo Gómez traduzido por Vanessa Rodrigues